O Espelho


Um brilho sedutor
Cintilava nas trevas.
Pousei-me ao seu redor.
Desvendando-a.

Eis o espelho octagonal.
Próximo ao círculo celeste.
Dele não escapa o mal.
Assim como o quadrado terrestre.

Ao que devia mostrar-me identico,
Apenas vi uma imagem distorcida.
Cheia de angústias e lamentos
De como é cruel a vida.

Nisto me transformei?
Ou mente o reflexo puro?
Ilusão a qual constatei
Ser culpa do escuro?

Talvez apenas a verdade
Que eu custo em aceitar.
A chama que não mais arde
E que hoje custa a queimar.

A silhueta tão singela
Perde-se no caos da dor.
Criatura uma vez tão bela
Agora decái num triste horror.

Por dias postei-me à frente
Da superfície brilhante,
Espelhada, que não mente.
Lembro-me de cada instante.

Quem sabe eu não possa
Mudar esta forma e horrenda e simplória.
Como um herói que se esforça
Para alcançar a glória.

Perco-me nos pensamentos,
Sonhos e planos futuros.
Esqueço que nesse momento
Ainda estou sentado no escuro.
Vislumbrando um espelho de lamentos.